O lado obscuro do tour ao Kawah Ijen, a cratera do vulcão de “lavas azuis” da Indonésia

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Kawah Ijen é a cratera de um vulcão ativo na ilha de Java, na Indonésia, que atrai turistas do mundo inteiro para ver o seu famoso lago turquesa e o fogo eletrizante e azul do fenômeno chamado de electric blue flames. A beleza é de fato impressionante, mas é bom saber existe um lado obscuro nesse tour tão comum na região.

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A verdade é que, no caminho até o topo do vulcão, você se deparará com uma das condições de trabalho mais precárias em áreas turísticas na Indonésia. E o motivo? Kawah Ijen é o único lugar do mundo em que a extração de enxofre ainda é feita manualmente. A mineração ali começou no final da década de 1960 e a extração da substância amarelada (e que deixa o ar com cheiro de ovo podre) é feita pelo homem através do serviço de pessoas que sobem a montanha duas vezes por dia. 

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Os mineradores carregam até 100 quilos de enxofre, seja nas costas, com a utilização de cestas abarrotadas, ou utilizando a ajuda de carrinhos. O trabalho os deixa com calos nas costas, problemas nas pernas e coluna, e tudo isso para ganharem apenas o valor aproximado de US$ 10 por dia. Para eles o pagamento é até alto, considerando que ganhariam menos da metade para trabalharem em alguma plantação da região. Mas o ônus da atividade é que toda a área está coberta de poeira de enxofre, que queima os olhos e a garganta. Com condições insalubres de trabalho, é possível ver muitos deles tossindo ao respirarem o gás vulcânico. 

Enquanto os turistas recebem dos seus guias máscaras para se protegerem do gás de enxofre, os trabalhadores que ficam lá por várias horas não possuem o equipamento e roupas adequados. Muitos usam apenas uma camisa em volta do rosto, para se protegerem do gás, e chinelos nos pés (há quem diga que eles têm acesso a máscaras, mas decidem não usá-las por acreditarem que ela dificulta a respiração e tornaria o trabalho mais lento).

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Para ganharem mais dinheiro, os trabalhadores costumam oferer carregar os turistas em seus carrinhos. E, para minha surpresa, vi algumas pessoas aceitando. O valor? 100 mil IDR, que seriam divididas entre a quantidade de mineradores levando os visitantes (como são necessários pelo menos dois, cada um receberia míseros US$ 4). 

Eu até já havia lido sobre isso em alguns lugares, mas confesso que não fui preparada para o que vi. Apesar dos trabalhadores estarem sorrindo e sempre desejando um selamat pagi  (bom dia, em indonésio), confesso que me incomoda como o turismo segue de maneira imperturbável na região. Fazendo o tour ao vulcão, estaríamos corroborando com a situação precária dos mineiros? Ou o dinheiro dos turistas de alguma forma contribui para a renda da comunidade local? 

E se você estiver se perguntando para onde vai todo esse enxofre, saiba que é usado na produção de cosméticos, açúcar refinado, detergentes, fertilizantes, explosivos, etc.

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